Ricardo sentou na minha cadeira na última terça-feira com uma queixa que ouço pelo menos três vezes por semana: um incômodo surdo no fundo da mandíbula que irradiava para o ouvido. Aos 24 anos, ele estava convencido de que era apenas estresse ou talvez um início de bruxismo. Ao abrir a boca e realizar o exame clínico, notei que o “vilão” era um velho conhecido: o terceiro molar, ou dente do siso, tentando encontrar um espaço que simplesmente não existia. Muitos pacientes chegam ao consultório com uma ideia binária — ou se tira todos os sisos por precaução, ou não se mexe neles a menos que doa. A realidade clínica, no entanto, é bem mais sutil e personalizada. Nem todo siso precisa ser extraído, mas a decisão de mantê-lo exige que ele seja funcional e, acima de tudo, higienizável. O caso do Ricardo ilustra o primeiro grande critério: a pericoronarite. Quando o dente está parcialmente erupcionado, coberto por um pequeno retalho de gengiva, cria-se o cenário perfeito para o acúmulo de resíduos alimentares e placa bacteriana. Como a escova não alcança aquela região de forma eficiente, a inflamação é inevitável. Nesses casos, a extração não é uma opção estética ou preventiva genérica; é uma necessidade para interromper um ciclo de infecções recorrentes que podem evoluir para abscessos graves. Outro ponto que avaliamos com rigor técnico é a integridade do dente vizinho. Já vi casos tristes onde o siso, posicionado horizontalmente (impactado), pressionou tanto a raiz do segundo molar que causou uma reabsorção radicular irreversível. Perder um siso é irrelevante para a mastigação; perder o segundo molar por negligência com o siso é um prejuízo funcional enorme para o paciente. Existem, claro, situações onde optamos pela preservação: O dente está totalmente irrompido e alinhado. O paciente consegue passar o fio dental e escovar a face distal sem dificuldades. O siso possui um dente antagonista (o de cima mordendo o de baixo), participando ativamente da mastigação. O dente está completamente incluso no osso, sem sinais de cistos ou pressão em estruturas nervosas. A tecnologia mudou drasticamente como planejamos essas intervenções. Antigamente, baseávamos quase tudo em uma radiografia panorâmica simples. Hoje, se o siso está muito próximo ao nervo alveolar inferior, recorremos à tomografia computadorizada de feixe cônico. Esse mapeamento digital nos permite visualizar em 3D a distância exata entre a raiz e o nervo, reduzindo drasticamente os riscos de parestesia (perda temporária de sensibilidade). No campo da ortodontia, a extração também é estratégica.
https://odontonapolis.com.br/dente-com-infiltracao-causas-sintomas-e-tratamentos-eficazes/
Muitas vezes, para finalizar um alinhamento ou garantir a estabilidade do sorriso após o uso do aparelho dentário, precisamos daquele espaço extra no final da arcada. Não se trata de “empurrar os dentes da frente”, um mito comum, mas sim de garantir que a biomecânica da mordida seja equilibrada. Para o Ricardo, o planejamento foi cirúrgico, mas tranquilo. Expliquei que a extração preventiva evitaria que ele voltasse daqui a cinco anos com uma cárie profunda no dente ao lado, algo muito comum em sisos mal posicionados. A odontologia moderna não foca apenas em tratar a dor instalada, mas em ler os sinais que o corpo dá antes que o problema se torne complexo. No fim das contas, a decisão de extrair um siso é uma análise de custo-benefício biológico: se o dente não ajuda e tem grande potencial de atrapalhar, ele não tem motivo para ocupar espaço.